Conclusões

 

ACTUALIZAÇÃO (08-Fev-2011): em Espanha o Instituto Nacional de Consumo ordenou a retirada da publicidade enganosa de 14 fabricantes depois de testar as EcoBolas e concluir que lavam o mesmo ou pior do que a lavagem apenas com água.

Ler notícia no Público.es

 

Afinal as bolas lavam a roupa ou não lavam?

Abreviando a conclusão, a resposta é simplesmente “Não”.

Numa resposta mais completa, temos de ter em conta alguns factos, nomeadamente que:

  • Algumas bolas contêm cerâmicas que não se sabe muito bem o que são mas, entre outras coisas, a publicidade diz que “geram raios infravermelhos” (como todos nós, mas isso não quer dizer que seja boa ideia metermo-nos dentro da máquina de lavar – 09:20);
  • Algumas bolas contêm pequenas quantidades de detergente nas cerâmicas supostamente naturais;
  • Algumas bolas contêm assumidamente detergente e sabão;
  • Há algum efeito da acção mecânica das bolas a bater na roupa, mas muito reduzido;
  • Nem todas as bolas foram testadas.

Dito isto, do outro lado temos que:

  • Todos os testes encontrados (credíveis) indicam eficácia muito reduzida das bolas, sendo a lavagem com as bolas comparável à lavagem só com água;
  • Não se encontra nenhum teste (credível) que mostre uma eficácia significativa das bolas;
  • Não se conhecem os autores nem os detalhes dos profundos estudos científicos e inovações que a publicidades das bolas invocam;
  • Se alguma das bolas não testadas fosse realmente eficaz e representasse uma melhoria significativa relativamente aos detergentes convencionais, o mais certo é que os seus inventores já teriam submetido a descoberta à avaliação da comunidade científica e sujeito as bolas a testes que comprovassem a sua eficácia. Faz algum sentido que não quisessem ver o seu trabalho reconhecido e os fabricantes verem as vendas aumentarem?

 A conclusão não é difícil:

  • As bolas prometem uma solução ecológica para lavar a roupa mas essencialmente são só umas bolas de plástico com pequenas quantidades de detergente comum que falham redondamente a lavar a roupa melhor do que a sua máquina já faz sozinha só com água;
  • A publicidade das bolas faz afirmações exageradas e/ou mentirosas e/ou não fundamentadas e/ou óbvias mas inconsequentes para a lavagem da roupa, que defraudam os consumidores.

 

O que podemos tirar de positivo de toda esta história?

  • Que podemos reduzir significativamente a quantidade de detergente que utilizamos para lavar a roupa.
    • Actualização (13-Abr-2011): após cerca de 6 meses a utilizar metade da dose recomendada de uma conhecida marca de detergente,  tempo suficiente para garantir que a roupa está livre de detergente de lavagens anteriores, não noto qualquer diferença na qualidade das lavagens. Quando há nódoas o procedimento é o mesmo que anteriormente: um pingo de água e um de detergente em cima da nódoa antes de colocar na máquina. 
      Vem esta actualização a propósito de uma notícia hoje no Jornal de Negócios que dá conta que a Unilever (“Skip”, “Surf”), Procter & Gamble (“Tide”, “Ariel”) e a Henkel (“Persil”, “X-TRA”) combinaram manter o preço dos detergentes para a roupa após a decisão da redução do tamanho das embalagens. As duas primeiras foram multadas pela Comissão Europeia, a Henkel teve imunidade por ter denunciado o cartel. Mais uma vez invoca-se o ambiente (imagem abaixo retirada de uma embalagem) para justificar uma medida mas, perante a atitude dos fabricantes de desrespeito pela lei da concorrência e de ficarem com todos os proveitos da redução de custos em vez de os partilharem com os seus clientes reduzindo o preço, custa a acreditar que a protecção do ambiente tenha tido algum peso relevante nesta medida.
                                                 
                                                   1/2 da honestidade?
      As EcoBolas são uma fraude de primeira ordem, mas não são as únicas que enganam… Longe disso: Espanha multa Colgate, Henkel, Puig e Sara Lee em oito milhões
  • Que ficámos mais informados sobre os esquemas que por aí existem e as técnicas utilizadas para enganar os consumidores, particularmente os que invocam a ecologia e a ciência para promover os produtos.
  • Que nos podemos rir à conta das alegações ridículas das ecobolas.

(clique na imagem para ver o video) 

 

No seguimento:

  • Os ECOBAGS são os irmãos das ECOBOLAS“, diz o site ecobolas.org, mais um que exibe orgulhosamente o video do Minuto Verde para validar as ecobolas. Estes ecobags não merecem mais do que um único comentário: o que restará para o ECOBAG fazer quando, passo a citar, “Para uma lavagem eficaz recomendamos que:
    • Realize uma pré-lavagem;
    • 50% da dose normal do detergente utilizado.

  • Quem diz que as cerâmicas milagrosas não servem para nada, a prova do contrário está no ECODUCHE. As cerâmicas servem para entupir o fantástico chuveiro que se vê na imagem abaixo, certamente um produto também fruto de profundos estudos científicos. Para além disso, passo a citar, “Relaxam os músculos, favorecem a função respiratória e diminuem a fadiga e a ansiedade trazendo uma sensação de bem-estar geral.”. Se os ecobags são o irmão das ecobolas, então o ecoduche deve ser o primo massagista, eventualmente cunhado da pulseira do equilíbrio (não foi possível confirmar esta informação).

  • Uma leitura interessante é o livro “Ciência da Treta“. Outros esquemas e uma reflexão sobre porque fazemos tantos erros de julgamento que nos deixam vulneráveis a sermos enganados.

  • Existe uma coisa que se chama “nozes de saponária” que poderá ser uma alternativa aos detergentes. As menções em testes são poucas e não propriamente positivas quanto à eficácia e praticidade. Provavelmente não serão (ainda?) uma solução para a maioria das pessoas.  

  • Uma outra fraude famosa é a das “pulseiras do equilíbrio“.  Felizmente as notícias são mais positivas:
    • Itália:  duas empresas multadas por publicidade enganosa num total de 350 mil euros.
    • Espanha: a Power Balance Espanha foi multada por publicidade enganosa em 15 mil euros. A organização de defesa dos consumidores FACUA recorreu da decisão por considerar a multa insuficiente e desadequada da legislação que prevê a apreensão do produto e multas que cubram os ganhos e ainda um valor adicional.
    • Austrália: os distribuidores foram obrigados a remover as afirmações de que as pulseiras “aumentam até 500% a força, energia e flexibilidade” e a publicar uma retratação. A Power Balance Australia reconheceu que não tinham provas científicas das afirmações que faziam. 
    • Portugal: tal como as “ecobolas”, também as “pulseiras do equilíbrio” apenas foram punidas com alguma perda de receitas com o  desmascarar das suas fraudes pelas associações de consumidores e cidadãos preocupados. Claramente insuficiente, no entanto. A DECO já reportou a situação às autoridades mas ainda não houve resposta (Fevereiro de 2011).

É um começo porque, talvez com excepção do caso da Itália,   até agora o crime compensou. As pulseiras atingem preços até aos 40 euros e têm gerado vendas na ordem dos milhões, ajudadas pela publicidade de “celebridades” e “famosos” que retiram os benefícios mas não assumem as responsabilidades de serem figuras públicas.

Numa reportagem da CBS (video) desmistificam-se os poderes das pulseiras expondo-se alguns dos truques básicos usados na publicidade e “testes” às pulseiras que levam as pessoas a acreditar que estas têm algum efeito para além de aliviar as carteiras. Executar um exercício sempre primeiro sem a pulseira e depois com a pulseira, é essencial porque naturalmente que as pessoas já estão predispostas a que numa segunda tentativa obtenham um melhor resultado e a prática obviamente que melhora os resultados. As pessoas que usaram uma qualquer pulseira em vez da verdadeira, sem o saberem, obtiveram também melhores resultados na segunda tentativa.
O outro truque é do “teste” de equilíbrio em que se empurra para baixo o braço da pessoa quando esta está assente apenas numa perna. Basta mudar o ângulo com que se faz a força, de vertical para oblíquo, para a pessoa já não caír. Junta-se a vontade de acreditar ao desconhecimento ou falta de atenção para leis básicas da física, e as pessoas nem se apercebem da diferença.
No entanto, mesmo depois de saberem os resultados e como foram enganados, a maior parte das pessoas continuou a querer as pulseiras. Isto diz bastante sobre como as ecobolas, pulseiras do equilíbrio e outros esquemas exploram as necessidades emocionais das pessoas. É um negócio bastante atractivo já que estes produtos apenas precisam de contar uma boa história, não têm todos os custos de produção normais num produto que tem de realmente produzir o resultado que anuncia.

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